Crianças de hoje devem viver menos que seus pais

tela_alemdopeso

O documentário “Muito além do peso”, de Estela Renner traz à tona uma discussão muito importante: alimentação infantil. O filme aborda a falta de conhecimento dos pais sobre as informações nutricionais dos produtos comprados para seus filhos, além da venda de alimento atrelada a brinquedos e os maus hábitos alimentares, induzidos pela publicidade, que agrega um valor emocional aos produtos cheios de açúcar e gordura. Mas uma das informações mais alarmantes do filme está logo no início, quando o chef francês Jamie Oliver afirma que, incrivelmente, somos uma sociedade em que a expectativa de vida de nossas crianças poderá ser menor que a dos pais. Temos a tendência de refutar essa informação de primeira, influenciados pelas diversas pesquisas divulgadas pela mídia acerca do aumento da longevidade humana.

Porém, um artigo publicado no The New England Journal of Medicine, intitulado “Um declínio potencial na expectativa de vida nos Estados Unidos no século 21”, põe em xeque a estimativa da Social Security Administration (SSA) de aumento dos anos vividos pelos americanos neste século. De acordo com os autores, os métodos de pesquisa utilizados pela SSA para se chegar a números otimistas subestimam dados amplamente divulgados, sobre a influência da obesidade e suas complicações na saúde das pessoas, como diabetes e hipertensão.

Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, o diabetes já afeta cerca de 246 milhões de pessoas em todo o mundo. A estimativa é de que, até 2025, esse número aumente para 380 milhões. No Brasil, a ocorrência média de diabetes na população adulta é de 5,2%, o que representa cerca 6 milhões de pessoas.

Pesquisadores da Universidade de Michigan concluíram que o número de crianças internadas com pressão arterial elevada duplicou nos Estados Unidos em 10 anos. O estudo revela que as internações pediátricas relacionadas à hipertensão passaram de cerca 12 mil em 1997 para 24 mil em 2006, um aumento de 100%. Os resultados mostraram ainda que os gastos com cuidados de internação para crianças hipertensas aumentaram em 50%, atingindo cerca de US$ 3,1 bilhões.

O médico Drauzio Varella publicou em seu site um artigo em que ressalta a polêmica da dieta infantil. Enquanto nos últimos 30 anos, o consumo de gordura animal tem sido a responsável pelo aumento de peso em adultos e pela atual epidemia de crianças obesas, os dados epidemiológicos falham na comprovação dessa teoria. Ao contrário, a epidemia de obesidade pediátrica se disseminou nos EUA apesar da redução da gordura animal na dieta das crianças americanas nos últimos 20 anos.

Varella explica que a diminuição do número de calorias derivadas de gordura animal na dieta costuma ser compensada por um aumento significativo no consumo de carboidratos pelas crianças, como pães, doces, chocolates, refrigerantes, salgadinhos e batata frita.

“Esses alimentos de alto índice glicêmico provocam uma resposta do pâncreas, que secreta quantidades elevadas de insulina para quebrar essas moléculas e armazená-las. Armazenadas, as moléculas de açúcar desaparecem da circulação, e o centro da fome é ativado novamente. Esse mecanismo explica porque, três horas depois do almoço farto em carboidratos do domingo, assaltamos a geladeira famintos atrás do pedaço de pudim que sobrou”, explica o médico.

O que Estela Renner faz em “Muito além do peso” é sintetizar as causas da possível redução na expectativa de vida das crianças, em imagens e pesquisas que mostram bebês experimentando refrigerante pela primeira vez antes de completar um ano, cujos pais não possuem informação. O filme ressalta ainda a importância da regulamentação da publicidade infantil, visto que é uma disputa desleal entre a rotina atual de trabalho dos pais para sustentar uma família e as técnicas de sedução dos comerciais, desenvolvidas por profissionais especializados em fisgar a vontade da criança.

Assista na íntegra o documentário “Muito além do peso”, de Estela Renner

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>