O caminho da cura na medicina ayurvédica

laura3

Há sete anos a terapeuta ayurvédica Laura Pires acorda junto com o sol e antes de começar o dia de trabalho pratica yoga e outras atividades recomendadas pela medicina milenar indiana. Ela é quem prepara sua própria comida – sempre fresca e orgânica – e não ingere açúcar, café ou chocolate. O descanso de quatro dias na semana é sagrado, ela não abre mão de se desligar da correria para estar conectada consigo. Mas não foi sempre assim. Antes de ir à Índia pela primeira vez em 2006, para tratar uma esclerose múltipla, Laura era arquiteta, vivia na ponte aérea Rio-São Paulo e quase perdeu a visão de um olho. Hoje, livre dos sintomas da doença que atinge o sistema nervoso central, ela é formada pela International Academy of Ayurveda, de Pune, na Índia e dá cursos sobre Terapia ayurvédica pelo Brasil.

Laura Pires

Laura Pires

 

Estar Bem – Laura, por que você escolheu a medicina ayurvédica para tratar a esclerose múltipla? 

Laura Pires – Eu não fiz tratamento convencional, pois tive medo dos efeitos colaterais da medicação, e porque vi que talvez outras medicinas “alternativas” poderiam trazer resultados  sem deixar sequelas medicamentosas. Me tratei apenas com ayurveda, yoga, meditação e hipnose. Na verdade o “tratamento” é para vida toda! Mudança de estilo de vida, alimentação, horários, hábitos e objetivos. Sei que tenho que ter um ritmo diferente, e ter outras prioridades. Meu corpo, minha mente estão 100%, mas há um cuidado e rotina diária bem especifica. Nenhum medico ayurvedico me prometeu curas em nenhum momento, e sei na verdade o que significa isso. Equilíbrio se conquista e se mantém com disciplina e rotina para mim.

EB – O que você sentia antes de procurar a medicina indiana?

LP – Antes de fazer o meu primeiro tratamento com base no Ayurveda tinha muitos sintomas. A fraqueza era continuada e mal tinha forças para andar em muitos dos dias. Por vários dias ficava de cama, e eventualmente me deslocava dentro de casa para o banheiro e cozinha. Claro que pela característica de instabilidade da esclerose múltipla os sintomas variavam sua intensidade de um dia para o outro. Cãibras noturnas que me acordavam durante o sono e me faziam trincar os dentes de tanto desespero, dando a sensação de estar rasgando os músculos das pernas e braços também eram comuns. As juntas estalavam e por vezes simplesmente trancavam e me paralisavam. Indigestões e constipações eram uma tônica diária. Mas dentro todos os sintomas o mais assustador era a perda da visão.

EB –  Quando você teve a confirmação de que o tratamento ayurveda estava dando certo?

LP – Foram justamente os sintomas da visão que me fizeram ter certeza de que estava no rumo certo após o tratamento.  Quando desembarquei do vôo de volta da Índia, após o tratamento, e entrei no carro para ir para casa, fiquei surpresa! Era noite! O trânsito do Rio estava intenso desde a saída do aeroporto. Dei-me conta que estava a olhar para o trânsito. Pude olhar para frente. A fotofobia que fazia doer olhos e deixava minha visão completamente turva diante das luzes dos carros tinha desaparecido.

Com isso ganhei segurança logo que voltei para o Brasil, na semana que se seguira era nítido que todos os sintomas tinham diminuídos e outros desaparecidos. Somente comparando minha vida de volta em casa envolvida na mesma rotina é que tive certeza que o Ayurveda estava me transformando e me curando.

Laura Pires em uma de suas viagens para a Índia

Laura Pires em uma de suas viagens para a Índia

EB – Quais as principais diferenças que você nota entre um hospital ayurveda e um hospital no Brasil?

LP – Não tem como fazer comparações. A metodologia, o entendimento, a abordagem e o tipo de tratamento ayurvédico e da alopatia são bem diferentes. Eu nunca precisei ficar internada em nenhum hospital no Brasil para tratamento alopático, então a única experiência que eu tenho é do amor, cuidado e muito respeito pelo ser humano para a total recuperação.

 

EB – Qual é a relação entre espiritualidade, autoconhecimento e saúde no tratamento ayurveda? 

LP – Tudo está interligado. Não é apenas no tratamento ayurvédico. Isto na verdade é a vida. A nossa vida é espiritual por si só.  A ignorância dos nossos atos, dos nossos comportamentos e das nossas atitudes nos leva ao adoecimento do corpo, da mente e da alma. A ayurveda apenas limpa o corpo doente, restabelece as funções orgânicas para que desta forma nossa mente, nossa alma estão livres para o real propósito da vida.

EB – Qual o papel do yoga e da meditação no seu tratamento?

LP – A yoga e meditação não fazem parte do tratamento “hospitalar”. São prescrições feitas para o dia a dia. Todas as pessoas deveriam fazer como rotina de prevenção. Hoje a própria ciência moderna já reconhece os efeitos destas práticas na vida das pessoas. Digamos que estas praticas são minhas pílulas diárias de energia e equilíbrio. Se não posso praticar por algum motivo, no final do dia eu já sinto os efeitos. É como escovar os dentes, tomar banho. Você incorpora na sua vida diária, percebe os benefícios e não pode mais parar.

EB – Você ainda faz uso de algum medicamento alopático?

LP – Eu nunca fiz tratamento alopático para tratar tais sintomas. Desde o inicio e até hoje fiz a opção por seguir 100% o tratamento ayurvédico conjugado com as praticas de yoga, pranayamas e meditações. Estes são meus principais medicamentos.

EB – A medicina alopática tem dificuldade para explicar as causas de doenças autoimunes, como a esclerose múltipla, por exemplo. A medicina ayurvédica te auxiliou no entendimento dos motivos pelos quais adoeceu? Se sim, explique esses motivos, por favor? 

LP – Sim, a ayurveda me ajudou muito, assim como as praticas de yoga e a Terapia de hipnose que realizei. Logo que fiquei doente, que ouvia as pessoas repetirem sobre uma doença incurável eu jamais me “apeguei” a este conceito. E isto fez uma grande diferença.  Como poderia ter uma doença incurável se nem mesmo os que afirmam sabem exatamente o que é este desequilíbrio, como e porque acontece. Na verdade, o que aprendi é que estas doenças não são curáveis, pois ainda não se sabe como trata-las. Na verdade a medicina não sabe a cura, e esse pensamento faz uma grande diferença, na motivação e no caminho e determinação a seguir para transformar um quadro.

EB – Atualmente você dá consultas como terapeuta. Como é praticar medicina ayurvédica no Brasil? 

LP – Eu trabalho como terapeuta ayurvédica.  Hoje eu vejo isso como uma missão. Despertar as pessoas para esta sabedoria.  A prática do ayurveda no Brasil como uma terapia esta crescendo e se difundindo, e minha vida é “levantar” esta bandeira e mostrar as pessoas como medidas simples podem transformar suas vida. É apenas gerar o despertar e a consciência adormecida de cada um, para olhar a si mesmo, e resgatar nossas próprias raízes.

Um dia num hospital ayurveda

Laura Pires contou ao Estar Bem como é sua rotina no hospital na Índia, onde fica cerca de um mês para fazer a “manutenção” do seu tratamento para a esclerose múltipla. Confira abaixo.

Anualmente eu volto para fazer minha ‘manutenção’. Fico cerca de 25 dias internada. Cada ano o tratamento varia. Tudo depende da minha condição. Mas basicamente tenho uma rotina parecida nos últimos anos.

Acordo cerca de 6h da manha, tomo minhas medicações ayurvédicas e vou fazer uma caminhada no jardim. Cerca de 4 vezes na semana temos aula de Yoga neste horário e substituo a caminhada pela pratica de yoga restaurativa.

Depois, vou para cantina tomar meu café da manha, que geralmente é composto por um chá e idli (bolo salgado indiano). Depois volto para meu quarto e fico a espera da visita da equipe medica que visita os pacientes todos os dias. Eles dão algumas instruções e fico deitada o resto da manha. Às 12h é servido o almoço na cantina e a dieta é sempre bem restrita.  Geralmente é composto por um curd (coalhada) com açafrão da terra, um pickles bem acido de lima, arroz basmati, chapatis (pão), uma porção de feijão moyashi com alguns legumes e uma porção de legumes com coco ralado e especiarias e outros vegetais refogados com coco e bastante especiarias.

Depois volto para meu quarto e fico a espera da minha massagem que começas às 14h. E por 1 hora as mãos fortes das quatro enfermeiras banham meu corpo com óleo bem quente.  Meu corpo mergulhado, vai aos poucos sendo sedado, a mente confusa com óleo quente pingando na testa…e cada minuto, o corpo, a mente vão se entregando ao calor, a suavidade do óleo e as manobras intensas e fortes de cada massagista. Ao terminar a massagem, as enfermeiras ajudam a tirar o excesso de óleo do meu corpo, com pequenos paninhos, e me enrolo em uma toalha e volto para meu quarto.

Permaneço ainda deitada e coberta de óleo por mais uma hora, e muitas vezes adormeço. Um banho morno, de caneca é claro, pois chuveiro na Índia é algo raro, ajuda a remover o restante do óleo do corpo. E depois a fome já começa a despertar novamente. Coloco roupas limpas e desço em direção a cantina para um chá com bolo. Reencontro algumas amigos e saímos para caminhar pelo jardim ou pela cidade, mas a caminhada nunca ultrapassa mais de 30 minutos. Isto já é suficiente para nos deixar cansados. O óleo da massagem, os remédios, deixam o corpo mais lento, a mente mais calma e os movimentos mais suaves. As articulações ficam mais sensíveis e, portanto, esforço físico deve ser evitado.
Vou ao templo, fazer minhas preces diárias, contemplar o local, manter o silencio, a reflexão, a presença, renovar as forças, a busca , a fé…

Quando chega às 19h, já estou na cantina novamente e agora para meu jantar. Neste horário todas as mesas estão ocupadas, e os pacientes muito falantes e agitados. Às vezes, a conversa está tão boa, que saímos da cantina e continuamos reunidos no saguão do nosso prédio, ou vamos para o templo, ou para o quarto de algum de nós.  As conversas nunca ultrapassam às 21h, pois às 22h todas as luzes dos corredores estão apagadas e é necessário silencio total, pois todos devem já estar deitados.  Ou então, volto para o quarto, para cama, ler, escrever contemplar, descansar e reavaliar cada momento, cada vivencia, cada experiência.

Mais informações sobre os cursos ministrados por Laura Pires no site http://buscadaessencia.blogspot.com.br/

1 Comment

  1. Pingback: Ayurveda e sua vida! | Sim Yoga

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>