Ilan Segre: uma temporada na Índia e a descoberta da cura

Ilan

Fazer o que gosta, praticar exercício, informar-se sobre alimentação adequada e não se preocupar com o que não pode controlar. Esse é o caminho para a saúde, segundo o terapeuta Ilan Segre, autor do livro “Terapia Integrativa – Ioga, naturopatia, psicologia e ayurveda” (Editora Ágora). Embora aparentemente simples, não é um caminho fácil de seguir, nem de ensinar. Para aprender, Segre – que é psicólogo por formação – ficou dois anos na Índia, onde fez pós-graduação em Yogaterapia e estagiou no Nisargopchar Ashram, fundado por Gandhi. A rotina era pesada. Estudava de segunda a sábado e atendia aos domingos, mas mesmo assim, lá “o tempo passava mais devagar”, conta o terapeuta.

“Acho que lá na Índia existe realmente um outro tempo! Eu me lembro de ter pego uma gripe e de ter levado cinco dias para sarar, e ninguém se desesperou por isso. Sarei sem nenhum remédio, apenas com repouso, jejum e tratamentos naturopatas”, explica “Tive febre alta, mas mesmo assim, foi tudo controlado com métodos naturais. Aqui, se faltamos um dia ao trabalho, já é demais. Então precisamos de analgésicos, antipiréticos e antibióticos para voltar à carga o quanto antes. Não respeitamos o tempo do corpo e da natureza.”

Registros de Ilan Segre na Índia

Registros de Ilan Segre na Índia

Em São Paulo, Segre atende aos pacientes com base no que aprendeu durante os estudos na Índia, porém acredita que estamos muito distantes do que é “natural” e quando o assunto é cozinhar, as pessoas tendem a querer soluções práticas e imediatas. Esse distanciamento, para o terapeuta, dificulta o entendimento do paciente sobre os conceitos ayurvédicos ou naturopatas, onde o homem é visto como um todo e como parte da natureza.

“As causas do adoecimento podem ser basicamente três: ambientais, emocionais e/ou mentais e de hábitos. É preciso traduzir o conhecimento indiano e aplicá-lo respeitando as limitações de tempo e práticas que a vida moderna impõe às pessoas. É gratificante sugerir pequenas modificações de hábitos que podem levar a melhoras rápidas”, ressalta.

Para Segre, o terapeuta ilumina o caminho do paciente, mas não tem a capacidade de empurrar ninguém por ele, por isso é preciso lidar com a realidade: a preguiça. Ele acredita que a maioria de nós quer soluções fáceis, porém alcançar a saúde é um processo que “demanda esforço e consciência”. Tirar o que está atrapalhando o progresso do paciente nesta caminhada é o papel de Segre, o que fica cada vez mais difícil com a predominância da cultura imediatista da medicina alopática.

“Para se curar eu falo que a pessoa precisa acreditar em primeiro lugar, senão nada acontece. E querer muito. Em yoga falamos em 3 shaktis ou forças: querer, saber e agir. Em geral, as pessoas querem, mas não sabem. Mesmo quando sabem por onde seguir, fica difícil agir. Hoje a alopatia está mais preocupada em retirar os sintomas, o que faz muito bem, mas o sintoma é a ponta do iceberg. Normalmente as pessoas buscam terapias complementares quando a alopata já não funciona mais. Comigo foi assim e com a maioria das pessoas também será. Pensamos no sintoma como algo localizado, quando na verdade é o oposto”, explica.

Índia: o respeito à tradição 

“Os indianos também estão se perdendo. O sânscrito está pouco a pouco se extinguindo e os costumes estão cada vez mais ocidentalizados. A diferença é que a cultura lá é tão forte que conseguiu permanecer, apesar das invasões. Nós tínhamos o conhecimento indígena no Brasil, mas acabamos com os índios e, com isso, tudo o que se sabia vai se perdendo”, conta Segre

 

O incentivo governamental, de acordo com ele é decisivo para entendermos porque na Índia as formas milenares de tratamento ainda tem força, apesar da dominação da medicina ocidental. Por lá, centros de conhecimento e tradição das culturas com apoio do governo buscam preservar os métodos tradicionais de cura. Ele conta que grandes escolas e hospitais conseguem sobreviver da medicina ayurvédica, yoga e naturopatia com financiamento do governo.

Em comparação à medicina alopática, Ilan conta que a forma de atendimento dos métodos tradicionais indianos é outro fator que destoa. Pacientes são tratados pela lógica da desintoxicação e não ficam menos de uma semana em tratamento intensivo, mesmo sem ter uma doença grave. Durante sua passagem pelo hospital de Kdham, no Nisargopchar Ashram, ele conta que cansou de ver pacientes internados por 15 ou 30 dias para a famosa “detox”, ao contrário do que vemos por aqui, onde as internações não são preventivas, mas sim paliativas.

“O Nisargopchar é barato até para os indianos. Tem opções de quartos muito baratos, sem luxo nenhum. Lá ainda está no coração deles a visão de levar tratamentos menos custosos e mais naturais à população que tem menos recursos. Aqui, ayurveda, yoga e meditação são luxos”, lamenta.

Apesar de toda dificuldade, Segre acredita que se conseguir transmitir apenas parte do que aprendeu com os médicos e pacientes indianos, ficará satisfeito. Em 2012 ele escreveu o livro “Terapia Integrativa”, onde compartilha as experiências obtidas durante o período da Índia.

“Jamais me esquecerei do que me ensinaram. Temos que nos tornar responsáveis pela nossa saúde e pelo nosso futuro. Acho que esse é o maior aprendizado.”

 

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