Não é porque é cru que é bom para todo mundo

cru

O poder das frutas foi o tema da edição do programa Globo Repórter, da TV Globo, na sexta-feira (07/03), após o Carnaval. Dentre os vários assuntos abordados estava o crudivorismo, uma das práticas mais contraditórias quando se pensa em saúde pelo ayurveda, medicina tradicional indiana. Vou explicar por quê.

Basicamente, o argumento dos defensores do crudivorimso é que o alimento cozido perde suas enzimas, que seriam importantes para a digestão. Para os adeptos dessa prática, os alimentos cozidos seriam pobres em enzimas, o que tornaria o saldo do processo digestivo com mais desvantagens do que vantagens para o nosso corpo. Porém, para o ayurveda, o alimento cozido é “pré-digerido”, o que facilitaria o trabalho do nosso organismo. Essa é o principal dissonância entre a medicina ayurvédica e o crudivorismo.

Considerar o crudivorismo uma verdade absoluta para todos, uma vez que cada ser humano possui suas particularidades, pode ser uma armadilha. Quando se faz o reconhecimento da constituição original da pessoa no ayurveda, duas pessoas com os mesmos doshas podem ser completamente diferentes e receber tratamentos diferentes.

Cozido ou cru: qual digere melhor?

temperos

O uso dos temperos adequados, além da preparação correta e indicada para cada pessoa é crucial para uma boa digestão, segundo o ayurveda

A digestão é a chave da saúde para o ayurveda. A discordância também aparece quando se levanta a questão de que o alimento cozido é um alimento morto. O cozimento, bem como o uso de temperos e a forma de preparo dos pratos, é a chave de uma alimentação saudável para o protocolo ayurvédico. Uma alimentação saudável no ayurveda é aquela que favorece a digestão, respeitando o comportamento do agni pessoa. O agni, o fogo digestivo, varia em intensidade de pessoa para a pessoa. Uma pessoa sob a predominância do dosha Pitta pode digerir bem um alimento cru, já um pessoa com predominância de Vata, nem tanto.

Mas ainda há pontos importantes a serem destacados. A medicina ayurvédica surgiu há 5 mil anos, e um dos pilares da sua estrutura é ver o ser humano como único. Por isso, o que faz bem para você, pode fazer muito mal para outra pessoa. Dentro desse contexto, o ayurveda busca identificar os atributos das coisas existentes na natureza, nos alimentos. Existem, portanto, no ayurveda, 20 atributos presentes em tudo que há, sendo 10 pares de opostos. Ainda nesse raciocínio, oposto diminui oposto, e semelhante aumenta semelhante. Exemplos: quente diminui frio; leve diminui pesado; seco reduz úmido e assim por diante.

O equilíbrio dos doshas por meio dos atributos 

Para sair do abstrato e ir para o concreto, levemos essa lógica para a questão da alimentação crua. Alimentos crus são, geralmente, mais leves, mais frios, ásperos como alface e outras folhas, e secos. Esses atributos são exatamente os que caracterizam o dosha Vata, portanto, uma alimentação crua aumenta esse dosha, podendo desequilibrá-lo. Pessoas com Vata predominante na constituição são naturalmente mais magras, mais secas, esguias, criativas, se movimentam com rapidez e possuem uma mente, quase sempre, sedenta por atividade.

Os atributos descritos acima também são opostos a alguns que caracterizam o dosha Kapha: pesado, denso, húmido, macio. Pessoas que possuem Kapha predominante são as que, geralmente, mais buscam as dietas, pois são naturalmente mais pesadas, possuem mais gordura, mais oleosidade, são menos agitadas, mais calmas e são mentalmente, em geral, mais estáticas.

O principal problema está no fato de que os alimentos crus não são de tão fácil digestão assim, segundo o ayurveda. A digestão de Kapha é lenta, e uma das mais propensas a gerar toxinas. Portanto, o atributo quente pode ser importante nesse caso, se o agni, a digestão da pessoa, for ruim. Por que? Porque o agni é quente, e semelhante aumenta semelhante. Além da temperatura, especiarias como pimentas e gengibre também podem ser usadas para estimular o agni.

Pensando isoladamente, o dosha Pitta, que caracteriza-se por um forte fogo digestivo, seria o mais apto ao consumo de alimentos crus.

Sem verdades absolutas

Porém, pensar assim é muito simplório, visto que na maioria das vezes uma pessoa não possui apenas um dosha em sua constituição, além de poder sofrer com o desequilíbrio de qualquer um desses humores biológicos – Vata, Pitta e Kapha, os três doshas do ayurveda – independente da sua constituição. Avaliar uma pessoa por meio do diagnóstico ayurvédico é esmiuçar sua individualidade. Considerar o crudivorismo uma verdade absoluta para todos, uma vez que cada ser humano possui suas particularidades, pode ser uma armadilha. Quando se faz o reconhecimento da constituição original da pessoa no ayurveda, duas pessoas com os mesmos doshas podem ser completamente diferentes e receber tratamentos diferentes, porque enquanto Vata em uma pessoa se mostra mais pela secura, noutra pessoa pode se mostrar mais pela temperatura fria. Por isso, é preciso tomar cuidado com os radicalismos e generalizações.

Como uma pessoa pode saber se uma dieta a base de alimentos crus está desequilibrando, ao invés de equilibrar? No corpo podem aparecer sinais de secura, magreza, aspereza da pele, palidez, perda de brilho da pele em evidência. Na mente, agitação, medo, inquietude, ansiedade, insônia causada por turbilhão de pensamentos.

 

Daniele Barbosa – editora do Portal Estar Bem

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