Ser saudável é uma atitude política

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Afirmo com toda minha certeza: ser saudável hoje em dia é uma das atitudes mais revolucionárias que se pode adotar. Protestos, passeatas, ir para a rua, tudo isso é válido, mas eficiente mesmo é viver de forma saudável. Por que? Vou te dizer: a primeira coisa que muda quando a gente decide levar uma vida saudável é o consumo. E o consumo é uma das principais ferramentas para mudar, ainda que em passo de formiguinha, a lógica econômica do nosso tempo.

A economia exerce papel central nas relações humanas e políticas. Políticos vencem (ou perdem) eleições com o discurso do crescimento econômico de um país. Os Estados Unidos, quando entraram na sua última crise, viram seu poderio político balançado. Na disputa histórica de poder, os EUA foram arrasados pela devastadora Crise de 1929. E é este mesmo país um dos principais exportadores do modelo de consumo atual, onde quem compra – produto ou serviço – não se dá conta que sua opção o envolve em toda uma cadeia produtiva. Por isso que comprar orgânicos, escolher se locomover de bicicleta, preferir a natureza ao shopping como lazer é saudável e também um baita gesto de protesto. E que não fica só na teoria.

A comida como revolução 

Para cada quilo de carne de vaca, cerca de 15 mil litros de água são usados, isso sem falar do desmatamento para o pasto. Nossa relação com os animais que podem fornecer algum tipo de alimento é péssima. Maltratamos, confinamos. Em entrevista para o Estar Bem, Anderson Rocha, dono de uma das quitandas de orgânicos mais tradicionais da cidade de Niterói, no Rio, conta que uma terra que recebe a agricultura tradicional, com defensivo químico, dura no máximo 6 anos, já a que adota a produção orgânica pode durar a vida toda.

Não é nenhuma coincidência o fato de se alimentar melhor andar de mãos dadas com consumo consciente. Trocando o fantástico mundo do supermercado pelo singelo e verdadeiro mundo das feiras, deixamos de consumir industrializados produzidos em massa, ou frutas e verduras de colheitas que não respeitam o ciclo da terra e que são absolutamente depredatórias do solo. Isso é um ato político.

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Eu diria que 80% dos supermercados são feitos de produtos e 20% de comida de verdade. Na feira não há opção, só vende alimento. Quando optamos pela feira no lugar do mercado, mudamos nossa forma de consumir, porque na feira, de preferência de orgânicos, as relações também são orgânicas. Quem vende às vezes é próprio produtor. E também só vende aquilo que “dá na época”, ou seja, você provavelmente não vai comprar abacaxi no período do ano em que o solo está propício para outra fruta.

No mercado, muitas vezes compramos pelo apelo publicitário sem ter a real necessidade. Na feira é apenas comida e ponto.

Pela janela do carro 

Pesquisadores revelaram, em estudo publicado no Journal of the National Cancer Institute, que pessoas que passam muitas horas sentadas tem risco 66% maior de desenvolver alguns tipos de câncer na comparação com quem fica mais tempo de pé. Nosso corpo não foi feito para esse sedentarismo imperante. Sentamos para trabalhar, sentamos para descansar, sentamos para nos locomover, sentamos para comer e por aí vai.

O consumo consciente é o ato mais político e engajado que podemos adotar para alterar a realidade das coisas para melhor.

Quando se tem carro, fica pior, porque o carro, geralmente fica na garagem e estacionado próximo ao trabalho ou local que se deseja ir. Andamos menos quando temos carro do que quando optamos pelo ônibus, que depende do local do ponto. Melhor ainda quando se opta pela bicicleta, que movimenta o corpo e não polui o ar.

filme-tempos-modernos-Claro que a opção pelo veículo de transporte depende de muitas variáveis. Mas o carro é, sem dúvida, a pior delas. Envolvidos na cadeia de produção de um automóvel estão diversos setores, como o de mineração e do petróleo, alvos de polemicas ambientais. Aliás, foi a fábrica Ford que deu origem ao termo fordismo, designado para representar modelo de trabalho fabril de produção em série tão insano e inorgânico para o homem – maravilhosamente representado por Charles Chaplin no clássico filme “Tempos Modernos”.

Por isso, se locomover de bicicleta é saudável e também um ato político. Quando andamos de ônibus – sem o fone do celular no ouvido full time – também conhecemos pessoas, conversamos, andamos, vemos paisagens. E também é um ato político.

A essa altura você pode estar contra-argumentando: “Mas a agricultura, ainda que tradicional, a indústria automobilística, o supermercado, a indústria farmacêutica, todos eles empregam milhões de pessoas no mundo, são responsáveis pelos bons desempenhos dos índices econômicos do Brasil e de outros países!”. É verdade. E é por isso que é mudando a forma de consumir que poderemos alterar a forma de se produzir sem maiores estragos, aos poucos.

Se o dono do supermercado descobrir que está perdendo cliente para a feira de orgânicos da rua ao lado, ele provavelmente dará um jeito de disponibilizar orgânicos com preço razoável nas suas prateleiras. Se as montadoras passam a pesar negativamente nos índices econômicos de um país, vai apontar para os governos a necessidade de rever paradigmas do crescimento econômico, já que a indústria automobilística, tão poluente desde a produção à utilização final da mercadoria, entra na contagem do PIB do Brasil.

O consumo consciente é o ato mais político e engajado que podemos adotar para alterar a realidade das coisas para melhor.

 

Daniele Barboa – editora do Portal Estar Bem

 

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