Vida fácil

Feet-on-in-grass

Eu comecei a trabalhar com 18 anos. Fui bancária. Eu trabalhava com empréstimo consignado – se meu chefe soubesse, teria me demitido, ao invés de ajudar os velhinhos liberando o empréstimo, eu os convencia de que não precisavam do dinheiro a mais. Depois fui ser secretária e depois operadora de telemarketing. Depois comecei a estagiar em empresas, na área de comunicação. Trabalhei em alguns lugares diferentes, mas algo era sempre igual: a sensação de que o tempo dedicado ao trabalho era exagerado.

Hoje, como terapeuta, consigo gerenciar de alguma forma meu tempo. Assim que comecei a trabalhar de forma autônoma, o tempo livre me incomodava profundamente. Era um conflito muito sério. Por mais que eu soubesse na prática que 8 horas diárias de trabalho, nos moldes modernos de um escritório, eram sufocantemente adoecedoras, quando me via com tempo livre me sentia extremamente culpada.

Comecei trabalhando na casa onde moro, num espaço montado exclusivamente para os procedimentos ayurvédicos e as consultas. Então, achei que o passo a ser dado era abrir um consultório em um local mais acessível na minha cidade. Minha agenda lotou, a culpa pelo tempo livre acabou, mas voltou a ser sufocante (além de cansativo, porque já não trabalho mais sentada em frente ao computador). Então retornei com os atendimentos em casa.

Existe uma falsa verdade, implantada na consciência coletiva, de que é preciso trabalhar arduamente, fazer coisas que não queremos todos os dias, abafar nosso poder criativo e nossa alegria, porque nada vem fácil e é só com muito, mas muito suor e luta que alcançamos aquilo que queremos. Me diga, o que você quer? Seja qual for a sua resposta, o que você quer não vale a morte diária silenciosa que transforma o cotidiano num peso muito maior do que você é capaz de carregar. Essa noção de que “se está fácil está errado” é tao arraigada que “vida fácil” é um termo pejorativo. Como se fosse errado terminar o dia bem disposto. O pior é que muitos de nós reproduzem esse padrão para as crianças, preenchendo o tempo livre delas com atividades, cursos além da escola. Tempo livre passa a ser muito errado.

unnamed (3)Eu sempre soube disso, desde os 18 anos, eu sentia isso. Foi esse sentimento que me trouxe ao lugar que estou hoje. Esse mesmo, o da foto. Sentada, às 17h, escrevendo sobre as coisas que penso no meu portal. Mas acreditem, até eu aceitar que isso não é errado, demorou. A ideia de que é preciso ser árduo estava incrustada na minha mente inconsciente.

Claro, tem dias que atendo muitos pacientes e fico cansada. Fiz minha formação em ayurveda junto com minha formação em jornalismo. Foi sacrificante, muitas vezes, mas passageiro. Há momentos que podem ser assim, mas a vida moderna impõe um sacrifício diário ininterrupto a uma larga parcela da população. Simplesmente porque as pessoas aderem à falsa verdade de que viver é difícil. Não! Viver é fácil. A gente precisa de tempo para olhar o céu, a gente precisa de tempo, numa terça-feira, de ir visitar um amigo, ver nossa mãe, a gente precisa de tempo para preparar nosso alimento.

Sobre dinheiro e salário, eu ganho o suficiente para dividir algumas despesas da casa com meu marido e pagar minhas contas (não são muitas, eu quebrei meu cartão de crédito tem alguns anos). Às vezes o dinheiro acaba um pouquinho antes da hora, mas, a calma permanece. Abri mão de alguns luxos, compro menos roupa, janto menos em restaurantes. Adquiri novas coisas que para alguns pode parecer supérfluo, como poder descansar no meio da tarde, fazer o jantar para mim e meu marido e dar banana na boca das minhas cachorras depois que elas almoçam, ao meio dia.

Às vezes, ainda me vejo sob o peso da culpa. A voz que insiste em: “Você está com tempo livre, não pode, faça alguma coisa!”, vez em quando que falar, mas eu quase não a ouço mais, porque geralmente eu ouço música quando não estou atendendo, ou quando estou estudando, ou fazendo a comida.

Eu amo meu trabalho. Minha profissão me realiza. Mas, gente, poder tomar banho às 15h num dia quente é muito maravilhoso. Poder ser acarinhada pelas minhas cachorras no meio da tarde recarrega minhas energias para o próximo paciente. São escolhas. Faça as suas. Acredite, não precisa ser nadinha de nada difícil. Viver é fácil. Eu espero que meu relato possa auxiliar quem precisa simplificar a vida e tornar a rotina mais leve.

 

 

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