Agrotóxico: a culpa é do capim

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Daniele Barbosa

O uso de agrotóxico hoje está muito mais ligado à falta de mão de obra que à contenção de pragas. Essa afirmação é de alguém que trabalha há mais de 20 anos apenas com produtos orgânicos, mas conhece a fundo o outro lado, o da produção com veneno.  Anderson da Rocha é responsável pela quitanda “Veio da Roça”, um dos poucos lugares em Niterói, na Região Metropolitana do Rio, que comercializa apenas produtos de cultivo orgânico.

Anderson da Rocha: orgânicos desde a década de 80

Anderson da Rocha: orgânicos desde a década de 80

A história de Anderson com a produção de alimentos livres de defensivos começou no fim da década de 80, e o fez acompanhar de perto diversas fases da produção orgânica no Brasil. O comerciante atribui o excesso de agrotóxico hoje ao capim. Isso mesmo, o inofensivo capim, que, apesar de não ter a ver com pragas, pode prejudicar a plantação, roubando os nutrientes da terra que ajudam no cultivo.

 

“Como há pouca mão de obra para capinar artesanalmente a terra, a agricultura de alimentos que, teoricamente, são de fácil cultivo no solo brasileiro, como aipim, inhame e laranja, recebe altas doses de veneno para impedir o crescimento do mato”, explica Anderson.

Anderson conversou sobre sua história e contou outros detalhes pouco conhecidos sobre o cultivo de alimentos orgânicos,  e também do uso de venenos ao Estar Bem. Confira a entrevista.

História 

Meu pai era caseiro de um dos fundadores da Associação de Agricultores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro (Abio), Marco Antonio Costa da Silva. Cresci nesse ambiente, fazendo feirinha de orgânicos na década de 80. Em 88, Marco Antonio resolveu abrir uma loja, apenas como hobby, já que era professor universitário.

Desde muito novo, eu sempre estive no negócio ajudando a gerente, que na época, já era uma senhora. Após a morte do Marco Antonio, há 6 anos, a mulher dele me passou a loja, segundo ela, por meu empenho e merecimento. Então, eu deixei o cultivo para me dedicar apenas à venda dos orgânicos na loja.

O capim

Existe uma verdade deturpada de que o excesso de agrotóxico nas plantações é por causa das pragas. Não tem mais mão de obra para capinar a roça. Capim não é praga, mas acaba consumindo nutrientes da terra que deveriam abastecer o cultivo, além de, se muito grande, tapar o sol. Quem vai capinar a roça? Hoje em dia, ninguém. Então, o cara passa de trator pulverizando Roundup (defensivo químico) em toda a plantação para impedir o crescimento de mato. E coloca muito. Assim, ele pode deixar aquela terra sem supervisão por bastante tempo.

Com essa deficiência de mão de obra, alimentos que teoricamente são de fácil cultivo no solo brasileiro, como aipim, inhame e laranja, estão cheios de veneno. Um grande produtor de laranja tem para mais de 10 mil pés. Imagina ter que capinar artesanalmente cada pé?

Na agricultura orgânica, a gente usa a Calda Bordaleza e o Óleo de Nim, que combatem as pragas e não fazem mal à saúde. O trabalho é artesanal, e o capim, a gente tira na mão, mas deixa ali mesmo, decompondo e servindo de alimento para a terra.

Agrônomos, veneno e orgânicos: muito além do agrotóxico

Na década de 90, o agrônomo vivia de vender agrotóxico, com as comissões que ganhava das fábricas. Quando você falava em cultivar orgânicos, eles tentavam de tudo para te convencer do contrário. Hoje, esse quadro melhorou, e já tem muitos agrônomos preocupados com a questão ambiental.

A questão do orgânico também não é só o agrotóxico, é também a preocupação com a sustentabilidade da terra. Uma terra que recebe a agricultura tradicional, com veneno, dura no máximo 6 anos. A terra fica cansada, recebe muito adubo químico e o agricultor extrai dela tudo o que é possível sem devolver nada. Na produção orgânica a terra pode durar a vida toda, porque a gente trabalha pensando no futuro dos nossos filhos.

O agrotóxico de perto

É muito comum a gente ouvir das pessoas da cidade, quando vão na roça, a seguinte frase: “Olha lá, o velhinho trabalhando de enxada na mão. Nossa, quanta saúde!”. O que essas pessoas não sabem é que, muitas vezes, aqueles  trabalhadores têm, no máximo, 50 anos, e estão envelhecidos e extremamente prejudicados por terem trabalhado muitos anos com agrotóxico e sem qualquer orientação.

Quase todos os primos da minha mulher trabalhavam com agricultura tradicional e tiveram câncer. Eu vi trabalhador diluindo os venenos na água com a própria mão, sem proteção. Não tem instrução para o manuseio do agrotóxico por parte dos fabricantes e ninguém entende muito bem a bula, com recomendações complexas. Isso fez o agricultor usar de forma indiscriminada o veneno na plantação e prejudicar sua saúde.

Novas tendências

A remuneração do agricultor hoje está boa. Acredito que isso pode fazer um movimento de retorno de pessoas para trabalhar na roça. Uma caixa de aipim cultivado com veneno, hoje, tem uma boa margem de lucro. Acho que o mercado está vendo que o consumidor paga caro no orgânico e está querendo aproximar o valor do seu produto ao do orgânico.

Outro aspecto que pode ser visto como positivo é que hoje melhorou a informação do agricultor e ele está usando o agrotóxico de maneira mais consciente. Antigamente o cara não sabia de nada.

Governo não ajuda

Não temos quase incentivo do governo, pelo contrário. Para poder se colocar no mercado, o agricultor orgânico recebe duas visitas anuais de agrônomos das certificadoras, e isso é caro. E para certificar seu produto não são analisadas apenas as condições do cultivo, eles fiscalizam a situação de todos os seus empregados, que têm de estar com carteira assina e todos os direitos trabalhistas sendo rigorosamente respeitados. Isso é correto, mas o governo não é tão criterioso assim com o cultivo tradicional.

Outra exigência que encarece o produto orgânico é a embalagem. Olha essa embalagem (Anderson mostra uma bandejinha de isopor embalado com plástico e com três abobrinhas dentro)? Isso é uma embalagem ecológica? Não tem nada a ver com orgânicos e encarece o produto final. E tem gente que só compra orgânico se estiver embalado assim. Algumas pessoas pedem para ver a nota fiscal dos meus legumes e verduras vendidos a granel, porque não acreditam que sejam orgânicos, só porque não estão nessa embalagem.

No Ceasa (Centrais de Abastecimento) eu vejo muito produto orgânico. É o cara que tem aquela produção pequena, às vezes um pedacinho de terra, e cultiva tudo naturalmente, sem veneno, mas não tem como se certificar porque não tem como pagar. Então, ele escoa a produção dessa forma. O certo seria ter um centro de distribuição de orgânicos aqui no Rio, como já existe em São Paulo.

A morte dos canários

Eu já presenciei uma situação curiosa. Certa vez, um cara comprou uma leva de jiló de agricultura tradicional para sua criação de canários. Quatro horas depois, 40 casais morreram! Então, eu resolvi investir no cultivo orgânico de jiló. Mas ele só comprava orgânicos para os passarinhos, pra ele, não. Era porque ele morria lento, só não sentia.

Serviço
Veio da Roça
Av. Sete de Setembro, 121 – Icaraí, Niterói – RJ
Tel. 2711-9105

2 Comments

  1. O Brasil usa vários agrotóxicos que são usados só aqui, por isso, é um dos motivos de exportações serem barradas na Europa. Houve um caso recem de um toxicologista da ANVISA que denúnciou a liberação de um agrotóxico proibido aqui no Brasil, como consequência foi exonerado do cargo.

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