Mãe em construção

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Muitos foram os pedidos para escrever sobre a gestação. Para dizer a verdade, eu não me sinto totalmente preparada para falar sobre isso ainda. A gestação é um processo de construção profundo, lindo, doloroso às vezes e, sobretudo, muito individual. Algumas mulheres dizem não sentir nada, outras sentem tudo, digo física e espiritualmente. No meu caso, escorpiana que sou, a gestação, esse momento de vir a ser uma nova coisa-pessoa-mulher tem sido um processo revolucionário.

Gestar um filho é gestar uma mãe. Nós mulheres nascemos com a maternidade em formato bruto, em instinto. Numa sociedade tão racionalizada, superficial e masculina, quando nos descobrimos gestando um filho, deixar esse instinto aflorar é rasgar as camadas do ego que nos prende nos diversos papeis assumidos ao longo da nossa vida: a profissional, a mulher, a amante, a filha. Agora, é preciso descobrir a mãe.

maternidade1E essa mãe, no meu caso, vem emergindo aos poucos. Por isso me encontro num período de total abertura para resgatar aquilo que já me pertence, mas que me foi violado. A começar pela escolha de poder parir. Na verdade, querer ter o direito de parir da forma como desejo, me colocou de cara em contato com a dificuldade de me vincular à experiência de ser mãe. Tenho plano de saúde, mas que não vai cobrir minha escolha. É preciso pagar para se ter parto normal, humanizado. É preciso lutar para isso.

E nessa busca, por profissionais que assegurem minha escolha, fui vendo que é preciso também lutar bravamente para ocupar esse lugar de mãe, dentro de mim e na sociedade. Quando em uma roda de pessoas sou questionada acerca da escolha e digo que é parto normal, noto em algumas pessoas o olhar de pena, como se eu não tivesse essa capacidade. Mais do que acreditar no equívoco de que a cesárea é mais segura, as pessoas simplesmente não acreditam que nós somos capazes de parir.

Minha geração é de mulheres que se casam depois ou perto dos 30, que primeiro se formam na faculdade para depois pensar em construir a vida, prolongam-se no lugar de filha, afim de estruturar melhor o terreno para se tornar mulher. Nasci já no império das cesáreas e através de uma. Não julgo minha mãe. As mulheres mais próximas de mim, pelas quais eu guardo o meu mais profundo amor e admiração, respeitam minha decisão, mas fazem cara de nervoso quando falamos sobre o parto. Vejam, eu não falo de parto, eu falo da necessidade de resgatar a força de ser mulher, seja no lugar de mãe ou em qualquer outro papel.

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A gravidez tem vindo mais tarde nesses tempos contemporâneos. Muitas de nós tem medo da maternidade, porque fomos sendo sorrateiramente destituídas dessa capacidade inata. Por isso, a gestação para mim, vem me colocando de frente com a realidade de uma sociedade patriarcal. E para lidar com isso é preciso reencontrar o instinto animal, de loba. Para me vincular com esse novo ser que se forma em meu ventre é preciso mais do que o amor automático e gigantesco que nasce com a noticia de estar grávida. É necessário romper com o lugar de filha, ocupar o lugar de autoridade, diante de mim, diante dos outros, diante da indústria, diante dos médicos, diante dos amigos, diante de todos.

Então, é por isso que ainda não havia escrito sobre a gestação. Porque, nesse momento, encontro-me em construção, com poucas certezas, muitas dúvidas e com uma amor em meu peito que, às vezes, me tira a sanidade. A expectativa dos meus leitores talvez sobre esse texto tenha mais a ver com alimentação, hábitos saudáveis na gravidez. De fato, só posso dizer que pouca coisa mudou. Permaneço priorizando em minha casa os alimentos orgânicos, não usando qualquer alopatia e consumindo quase nada de alimentos industrializados. De mudanças, apenas o consumo da carne vermelha no início foi o mais “radical”, quando busquei opções orgânicas também, mas que agora já é quase zero novamente.

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