Amamentação, colo e chupeta: os desafios da maternidade consciente

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Tenho 29 anos e uma filha de seis meses. Faço parte de uma geração de transição no que diz respeito à maternidade e isso pode tornar as coisas mais difíceis do que já são quando somos mães de primeira viagem. Mas por que somos mães de transição? Vejam, a maior parte de nós nasceu na época em que colo demais estragava, introdução alimentar começava aos quatro meses, cama compartilhada significava o fim da vida do casal e cesárea era a melhor escolha. Hoje, maternamos em meio ao retorno das nossas origens e isso pode querer dizer romper com a forma como fomos criadas.

Pode ser muito trabalhoso ser mãe atualmente. Aliás, pode significar uma embate diário, o famoso “um leão por dia”. Além da insegurança natural da mãe do primogênito, muitas de nós se veem obrigadas a fazer tudo da forma contrária como nossas avós e mães aprenderam. Eu vivi (e vivo!) isso na pele.

Não dei chupeta. “Olha, essa criança vai chupar dedo e vai ser muito difícil tirar depois, chupeta você tira, dedo não.” Minha filha chupou o dedinho sim, mas confirmou a tese de que, passada a crise e obtendo o acolhimento necessário, deixar de chupar o dedo é algo que acontece naturalmente. Assim foi, dos dois aos quatro meses ela procurava o dedo sempre que chorava, ainda que eu desse todo o colo do mundo. Com o tempo, a crise passou e o dedo foi esquecido.

Fui alvo da pressão social de que dar colo estraga a criança. Esse, sem dúvidas, foi um dos mais bravos desafios. Porque minha filha chorava bastante desde o primeiro dia de nascida. Já na primeira noite fora da barriga, ela passou toda a madrugada colada em mim. Desde que nasceu ela mamava e dormia coladinha em mim, passava boa parte do dia no sling, mesmo que eu estivesse em casa. Foi cansativo sim, mas mais exaustivo foi ter que lidar com o incômodo que as pessoas tem em ver um neném no colo. Até hoje eu gostaria de entender isso. Por que o colo incomoda tanto as pessoas? Se eu estou disponível e minha filha, uma bebê recém-nascida precisa, porque eu ei de negar colo?

A questão do colo foi difícil, porque verdadeiramente me colocaram medo: “Você vai ficar escrava dessa menina”. Isso me soava tão esquisito, mas era assustador. Silenciei e ouvi meu coração. Não cabe escravidão numa relação com um neném que morava dentro da minha barriga, minha gente. É no mínimo insano pensar isso. Hoje eu vejo o quanto o colinho ajudou a ela superar os desafios de ser neném e assim seguimos, nessa relação de troca maravilhosa.

O meu leite já pareceu não ser o melhor alimento para minha filha. E também foi desafiador. Até pouco tempo atrás, começávamos a introdução alimentar aos quatro meses, isso já é suficiente para os mais velhos acharem um absurdo dar só “mamá” até seis meses. Somado a isso, minha filha nunca foi daquelas que se acalma com “toma um peitinho, filha”. Pelo contrário, se tentar dar peitinho na tentativa de acalmá-la e fome não for o real motivo do choro, ela se irrita mais ainda! Livre demanda e amamentação exclusiva fez com que ela negasse o peito inúmeras vezes na frente de muitas pessoas. Logo surgiram os primeiros: “será que seu leite está alimentando?”, “ela não quer mais mamar”, “ela quer comer”. Haja paciência, muito mais com os comentários do que com as crises da minha filha.

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Minha filha chorava muito nos seus primeiros meses. A coisa só melhorou lá pelo quarto mês. Isso dificultou muito minha vida. É cansativo lidar com um neném que chora muito, porque você quer conter o choro, na intenção de interromper o sofrimento do seu filho. Nessa busca, a gente tenta encontrar motivos e podemos ficar mais suscetíveis às interferências. Muitas pessoas queriam que eu desse remédio contra cólicas para Flor. Não dei e fui julgada por isso. Queriam que eu desse chupeta para acalmá-la. Não dei e também fui julgada por isso. Nas consultas mensais com o pediatra, tudo ia bem: o peso, a saúde em geral. Aparentemente, o choro não tinha motivo.

Você que está grávida, ou está passando por isso: nenéns choram e na maioria das vezes se você se acalmar e afinar seu coração com o do seu filho, vai conseguir superar essa fase. Pode ser que seu filho continue a chorar. Ainda assim seu leite é o melhor alimento, seu colo é o melhor afago, o dedinho poderá ir à boca, mas será esquecido logo que essa fase inicial passar.

Ser mãe é aprender ouvir o coração. Nele reside a cura do choro do neném, ainda que seja apenas paciência para esperas passar essa fase de adaptação. Afinal, nossos filhos saem de dentro da barriga para o mundo, de um estado fluido de existência para um espírito encarnado em um corpinho. Pense: se não é fácil para nós, imagina para eles.

É como diz a música: “Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coraçao tranquilo.”

 

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