Relato: amamentação, “um parto” depois de parida

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O que chocolate, um escapulário da minha avó e amamentação têm a ver? No meu caso, tudo! E eu quero compartilhar aqui esse relato, porque sei que posso auxiliar muuuuitas mães de primeira viagem.

Minha gestação foi exatamente como eu sonhava. Pude viver intensamente cada momento. Tive o auxilio de uma doula que também é psicóloga, de uma obstetra humanizada incrível e do meu marido, que me respeitou e foi um verdadeiro apoio. Me lembro da Bia (a doula) me perguntando se eu tinha alguma dúvida sobre amamentação durante nossos encontros e eu dizendo que não. Nunca teria mesmo, porque antes de Maria Flor nascer eu jamais poderia imaginar o quão DIFÍCIL seria amamentar.

Maria nasceu de uma cesárea, depois de muitas horas em trabalho de parto. Deu tudo certo, apesar de não ter tido o parto que idealizei. Logo que nasceu, ela veio pra mim, ainda cheia de vérnix, e grudou no meu peito. Ela mamou praticamente o tempo todo desde a hora que nasceu, até o dia seguinte. Nós passamos a madrugada juntinhas, ela grudadinha no peito. Quando ela pegou meu peito, foi a maior emoção que já tive. A Bia me ajudou no momento, me orientou quanto à posição e como eu deveria corrigir a pega. Beleza. Só que não, gente!

amamentação

Maria Flor mamando assim que nasceu

Dificuldade 1: meu leitei não descia! Levou uns cinco dias para descer. Me lembro de eu dar 15ml de NAN pra Flor chorando muito. Eu por tristeza, ela por fome (pelo menos eu achava isso). Eu queria muito, muito amamentar. Não bastasse a dificuldade que é a adaptação da vida com um recém nascido, eu passava qualquer hora que eu tinha livre ordenhando a mama para estimular a descida do leite. A minha mão doía, de tanta ordenha. Mais tarde eu até comprei uma maquininha, mas ainda vamos chegar nessa parte.

Dificuldade 2: o leite desceu. UFA! E então, meus dois bicos racharam. Um praticamente dividiu em dois. Passei a ficar sem blusa, com os bicos expostos ao sol diariamente, várias vezes ao dia para ajudar na cicatrização. Às vezes eu tinha que decidir entre tomar banho, comer, fazer xixi ou ficar no sol. Eu sempre escolhia ficar no sol, porque a dor que eu sentia para amamentar era tanta, tanta! Gente, dói muito amamentar com o bico machucado. Levou umas duas semanas pra cicatrizar as feridas mais sérias. Só com sol e leite do próprio peito nos bicos. Eu continuei sentindo dor em algumas mamadas, a pega de Flor era correta, o freio da língua era normal, não usamos nenhum tipo de bico artificial, a não ser nos 15ml de NAN. Então, não tinha explicação, simplesmente doía. Só melhorou com o tempo mesmo.

Dificuldade 3: muito leite, bicos cicatrizados. Graças a Deus, agora vai. Só que não de novo. Maria Flor do segundo ao quinto mês se DEBATIA durante as mamadas e chorava boa parte do dia. O que mais ouvi: “Seu leite não está alimentando ela”, “Ela vai largar seu peito, ela não quer mais mamar”. Mas eu tive um grande aliado durante todo esse processo. O Grupo Virtual de Amamentação (GVA). Mulheres grávidas, entrem nesse grupo. Lendo os textos, eu descobri que eu tinha hiperlactação. Muito leite, descendo em muita quantidade durante as mamadas. Essa também era a suspeita do pediatra, Guilherme Tauil, para o comportamento de Flor. Passei a ordenhar antes das mamadas, mas vou te dizer, não resolveu muito. Só mesmo com o tempo, a partir do sexto mês, a produção de leite se adequou à demanda de Flor.  Então, até lá, foi essa luta.

Dificuldade 4: Então, lá pelo terceiro mês eu tive o primeiro (de muitos) episódio de mastite. Num domingo de noite, eu comecei a sentir muita dor. Olhei a mama direita e ela estava TODA vermelha e quente. Fui na emergência da maternidade onde Maria Flor nasceu no dia seguinte. A médica olhou e logo receitou antibiótico. O médico que cuida da saúde da minha família estava na Alemanha e me orientou só usar o antibiótico se tivesse febre e passou um tratamento com própolis. Eu passava óleo de coco na mama, massageava muito e ordenhava O DIA TODO. Não deixava a mama cheia nunca! E sempre oferecia a mama inflamada durante as mamadas. Era uma dor insuportável, mas esse era o remédio! Minha mama inflamou diversas vezes até o sexto mês, incontáveis vezes, mas nunca usei o antibiótico. Até que a produção se ajustou a demanda.

Deixa eu contar uma coisa: Maria Flor dormia a noite toda até o quinto mês. Então você pensa que eu dormia também? Sim, eu dormi, até a minha mama inflamar pela primeira vez. Depois eu tinha que acordar de madrugada para esvaziar a mama. Essa era uma das causas da mastite. Como ela não mamava, o leite produzido durante a madrugada ficava retido e causava a inflamação. Foi aí que eu comprei a bombinha elétrica. Usava só de madrugada, porque era muito cansativo ordenhar manualmente duas, três vezes pela madrugada.

Até que no quinto mês Maria Flor parou de dormir durante a noite e passou a mamar a madrugada inteira. Por um lado foi bom, a sucção do bebê é mais eficiente para esvaziar a mama do que qualquer bombinha ou ordenha manual.

Gente, quantas vezes eu pensei em desistir. Foi muito difícil todo esse processo. Puerpério, essa saga para amamentar. Por isso, quando uma mulher desiste ou diz que não gosta de amamentar eu compreendo muito!

Amamentar também é um ato de entrega. Quando você decide amamentar, você se coloca à disposição de outra pessoa, em livre demanda, a hora que ela precisar. É preciso afrouxar os nós do apego para isso. É como se seu corpo pertencesse a outra pessoa por um longo período. E assim é. Os hormônios da amamentação te colocam nessa condição. Mulher que amamenta tem pouca libido. É preciso um casamento maduro também para resistir à dedicação exclusiva da mulher, porque não tem como ser diferente.

Da sociedade, não devemos esperar isso. O modelo econômico no qual vivemos clama pelo retorno da puérpera, para que ela volte a ser produtiva e a gerar lucros. Amamentar, nessa perspectiva, também é um ato de resistência. Muitas não podem se dedicar integralmente à cria nem por seis meses, quanto mais por um ano. As que querem muito, resistem, fazem estoque de leite, ordenha em ritmo frenético.

Amamentar, além de toda dificuldade fisiológica – sim é natural, mas não é automático, nem fácil – mexe muito com o lugar que a mulher ocupa atualmente na sociedade. O peito deixa de ser objeto de desejo sexual e passa a ser apenas um veículo para alimentar um bebê. Amamentar em livre demanda até os dois anos, como recomendam os órgãos oficiais de saúde, exige que a mulher esteja disponível para essa criança por esse tempo, madrugada adentro, dia afora. É puxado gente.

Mas a boa notícia é que depois dois seis meses a amamentação virou um mar de rosas. E é geralmente nessa fase que fica boa pra todo mundo mesmo. E logo quando está bom, o povo começa a pressionar a mãe a desmamar. Gente, para! É ruim hein! Maria Flor hoje faz todas as refeições, come tudo, MENOS industrializados, açúcar e lácteos. É comida de verdade e leite materno, se Deus quiser, até os dois anos. Hoje ela está com um ano. Sim, mais um ano de entrega. Às vezes é cansativo, sobretudo de madrugada. Mas aquele olhar, durante as mamadas, aquele carinho, até aquela puxada de cabelo, é um sublime momento!

Acho importante ressaltar que não usei nenhum bico artificial, nem chupeta, nem bico de silicone quando os bicos dos seios ficaram feridos. Isso é crucial para evitar o desmame ou confundir a pega do bebê. Ah, sobre pega, eu corrigi a de Flor várias vezes no início, e a sensação era de que não adiantava nada. Então, com o tempo ela foi ficando craque em mamar sem me machucar, mas foi só com o tempo mesmo.

Já ia esquecendo, o escapulário da minha avó, que já morreu, eu coloquei no pescoço num dia de desespero e fiz um acordo com Santo Expedito: “santinho, eu sei, não vou à missa quase nunca, nem sou católica, eu sei que sou cristã. Me ajuda. Eu não vou comer chocolate até a Páscoa de 2017 e você me auxilia nessa tarefa, eu tenho que amamentar minha filha. Me dá força, por favor.”

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O chocolate que comi e o escapulário que usei por um ano. O chocolate acabou enquanto postava esse texto no blog, heheheeh!

Deu certo! Comi meu primeiro chocolate em um ano hoje! Mas, promessa a parte, porque nem todo mundo acredita, fez muita diferença mesmo para eu não desistir: o pediatra da Maria Flor, Guilherme Tauil, que sempre me incentivou, nunca falou sequer em uso de fórmula e me ajudou algumas vezes com a pega; a doula Bia Muniz, que também foi meu suporte, sobretudo no início, me ensinando a ordenha manual e me incentivando; a minha obstetra e ginecologista Clara Naegele que também sempre me incentivou e me auxiliou durante a mastite e alguns machucados na mama; meu médico da vida, Eduardo Almeida, que lá da Alemanha me acalmou durante a primeira mastite e me receitou um tratamento com própolis e ordenha, me ajudando a evitar a necessidade dos antibióticos; meu marido, o melhor do mundo, meu porto seguro e meu apoio; o Grupo Virtual de Amamentação, lá eu descobri que não é só mamadeira que causa desmame precoce. Chupeta e bico de silicone com intermediário para usar quando o bico do seio racha também causam desmame e dificulta ainda mais a amamentação. E por fim, a minha imensa vontade de ser o alimento da minha filha! Rumo aos dois anos de livre demanda!

Nem toda mulher tem dificuldade para amamentar. Algumas poucas e felizardas amamentam desde o primeiro dia, tranquilamente. Mas a maioria das que me rodeiam tem histórias de dificuldade.

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