Sobre a palestra de Laura Gutman no Rio

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Quando uma pessoa tem força e firmeza para falar aquilo que pensa e quando fala a partir do coração é arrebatador. Estar na presença dessas pessoas e ouvir delas palavras que nos conduzem a olhar para o nosso próprio coração é uma experiência transformadora. E foi isso que vivi na manhã deste sábado no primeiro evento da série “Encontros que Inspiram”, organizado pela Sensa Produções, com ninguém mais, ninguém menos que Laura Gutman.

Você pode estar se perguntando: “Laura quem?”. Beleza, ninguém tem obrigação de saber quem é. Mas eu vou te dar uma dica. Se você é mãe, precisa conhecer o trabalho dessa mulher. Se você não é, mas quer ser, também precisa. Vai por mim. Se você não é mãe, nem quer ser, você é filha, então você também precisa conhecer os livros mais recentes dela.

Laura Gutman é uma das autoras mais incríveis sobre o tema maternidade. Ela é a mão que te convida a olhar com carinho e coragem as questões mais profundas que envolve o nascer de um filho. Eu já li quase todos os livros dela traduzidos. E ouvi-la falar é arrebatador.

Ao contrário do que muitos pensam, Laura não defende cama compartilhada, aleitamento materno, criação com apego, nada disso. Acontece que ela defende uma tomada de consciência por parte, principalmente da mãe, mas também do pai. Ela incentiva um olhar sinceramente altruísta sobre a tarefa de criar um novo ser. E isso quase sempre desemboca em cama compartilhada, aleitamento materno, criação com apego.

Hoje, na palestra ela disse algo que me tocou profundamente, talvez pelo meu momento pessoal de estar voltando a atender meus pacientes e prestes a começar alguns cursos de especialização. Ela disse algo do tipo: “O problema não é a mãe sair para trabalhar. Desde que ela permaneça entregue à fusão emocional que o bebê necessita, está tudo certo. Se ela sai e deixa o bebê em condições adequadas e depois retorna ainda submersa na fusão psíquica e emocional que o bebê necessita para ser amparado, está tudo bem”.

Ouvir a Laura é ter a certeza de que tarefa de cuidar e criar um filho requer só entrega e capacidade de amar. Isso seria mais fácil se não fossemos frutos de discursos familiares distorcidos e falta de amparo durante nossa infância. Somos uma sociedade organizada em modelos de dominação, onde o medo da escassez rege nossas decisões. Crescer em famílias inseridas nessa forma de viver não pode ser lá muito boa coisa. E isso não tem muito a ver com o que nossas mães fizeram. Sem dúvida, elas fizeram o melhor. Isso tem mais a ver com o que fizeram com as mães das nossas mães, e também com as mães das mães das nossas mães, e assim por diante.

Mas quando vemos o discurso da Laura ganhar força é que nos damos conta de que pessoas estão insatisfeitas com o modelo social imposto. Pessoas querem amar, se entregar, querem ser felizes, ter coragem, liberdade, querem se sentir acolhidas, mas sobretudo, querem acolher. E esse movimento só é possível se começarmos a olhar para os nossos filhos.

De fato, Laura Gutman não é propriamente uma autora sobre maternidade. Ela é uma autora sobre autoconhecimento. Sinto nas palavras dela um chamado para o autoexame profundo com a finalidade única de liberar o coração para amar livremente seu filho. Ama-lo livre das suas próprias feridas e carências da sua infância. Ter um filho é a maior oportunidade que um adulto tem de reviver essas feridas e curá-las.

Ah, e antes que você pense que não tem dores da sua infância, Laura adverte: “Todos nós pensamos que tivemos uma infância feliz…”, provavelmente porque nossa memória é povoada sobretudo daquilo que a nossa mãe nos contou sobre nossos primeiros anos de vida.

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